Bíblia em Detalhes

Curiosidades, histórias e detalhes da Bíblia explicados com contexto e clareza.

Jesus pagou imposto? A moeda na boca do peixe, em Mateus 17

Jesus mandou Pedro pescar um peixe com uma moeda na boca para pagar o imposto. Veja de que imposto se trata, por que o texto diz que os filhos estão livres e o que…

7 min de leitura

Estáter de prata e anzol de ferro sobre pedra de basalto molhada na margem do mar da Galileia ao nascer do sol

Resposta curta

Em Mateus 17:24-27, Jesus manda pagar o imposto do templo, que era de duas dracmas por homem. Ele diz que “os filhos estão livres” (17:26), mas manda Pedro pagar “para que os não escandalizemos” (17:27). O dinheiro viria de um estáter achado na boca do primeiro peixe pescado, o bastante para os dois. O texto não conta que Pedro pescou o peixe nem que o pagamento foi feito.

De que imposto se trata

Em Cafarnaum, “os que cobravam as dracmas” perguntam a Pedro: “O vosso mestre não paga as dracmas?” (17:24). Não é o imposto de Roma. A palavra grega é didracma, duas dracmas, e o comentário de Ellicott a descreve como a taxa do templo, paga por todo israelita do sexo masculino a partir dos vinte anos, fixada em meio siclo por cabeça, com base em Êxodo 30:13-16 e 2 Crônicas 24:9.

Em Êxodo 30:13-15, a oferta é “a metade de um siclo”, e “o rico não dará mais, e o pobre não dará menos”. Servia “para fazer expiação por vossas almas” e ia para o serviço da tenda (30:16). O Pulpit Commentary lembra que os cobradores de 17:24 não são os “publicanos” de Roma. Era uma cobrança religiosa.

O texto não explica como ela chegou à forma anual de Mateus. Neemias 10:32, mais tarde, registra um compromisso de “a terça parte de um siclo” por ano para a casa de Deus. É um valor diferente, e a Bíblia não diz como os dois se relacionam.

Leia o capítulo 1 de graça

O livro já saiu. Deixe seu e-mail e receba agora o primeiro capítulo, “O ferro era emprestado”, em PDF, para ler antes de decidir.

Só mandamos e-mails sobre o livro. Para sair, clique em “Sair da lista” no fim de qualquer e-mail.

A pergunta que Pedro responde sozinho

Pedro responde “Sim” (17:25). Ellicott lê isso como hábito: Jesus pagaria agora como já pagara antes. O texto, porém, não diz que ele consultou o mestre, nem que Jesus tivesse pago antes. Quando Pedro entra em casa, Jesus “se lhe antecipou” e pergunta de quem os reis cobram tributos, “dos seus filhos, ou dos alheios?” (17:25).

Pedro diz que dos alheios, e vem a conclusão: “Logo, estão livres os filhos” (17:26). Para o Pulpit, a lógica é a de um rei cujos filhos não pagam e que o imposto servia ao templo de Deus, de quem Jesus é filho. Ellicott acha que o alcance é maior e que o plural “filhos” indica uma verdade geral, não só sobre ele. Ambas as leituras são de comentaristas. O texto fica no plural e não diz mais.

O estáter e o anzol

A ordem vem em seguida: “vai ao mar, lança o anzol, tira o primeiro peixe que subir, e abrindo-lhe a boca, encontrarás um estáter; toma-o, e dá-o por mim e por ti” (17:27). Chama a atenção que seja um anzol. Pedro era pescador, e o Pulpit nota que ele deveria usar linha e não a rede de costume. É interpretação do comentário. O texto só diz “anzol” (ankistron, no grego).

O estáter valia quatro dracmas, segundo Ellicott. Isso cobria exatamente as duas dracmas de Pedro e as duas de Jesus. O Pulpit chama atenção para a expressão “por mim e por ti”, porque Jesus não diz “por nós”. Seria uma diferença de motivo: ele pagaria isento, e Pedro, obrigado. O texto não explica a escolha das palavras.

Contraste com o tributo a César

Mateus também registra outro imposto, e a resposta é diferente. Em 22:17, perguntam se “é lícito pagar o tributo a César”. Jesus pede a moeda, pergunta de quem é a efígie e responde: “Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (22:21). Ellicott observa que a palavra grega de 17:24, didracma, é outra, diferente da de 17:25 e de 22:17, que ele associa ao censo pago a Roma. A didracma é a taxa do templo.

O detalhe que passa despercebido

A narrativa termina na ordem. Depois de “dá-o por mim e por ti” (17:27), o texto não diz que Pedro foi ao mar, pescou, achou a moeda ou pagou. Ellicott observa que esperaríamos uma frase como “e foi e achou como lhe fora dito”, e que ela não aparece. O Pulpit também diz que o relato termina “abruptamente”. Para ele, o silêncio é eloquente, e a leitura de que houve milagre é a dele.

Em resumo: o que o texto registra é uma ordem e uma promessa. O resultado fica por conta do leitor.

O que o texto diz

Mateus 17:24-27 permite afirmar que:

  • cobradores da taxa do templo perguntaram a Pedro, em Cafarnaum, se o mestre dele pagava (17:24);
  • Pedro respondeu que sim (17:25);
  • Jesus argumentou que os reis não cobram dos próprios filhos e concluiu que “estão livres os filhos” (17:25-26);
  • mandou pagar mesmo assim, “para que os não escandalizemos” (17:27);
  • indicou o dinheiro: um estáter na boca do primeiro peixe pescado com anzol, “por mim e por ti” (17:27).

O que o texto não diz

O texto não diz que Pedro pescou o peixe, achou a moeda ou entregou o dinheiro. Também não diz que Jesus tenha pago o imposto em outra ocasião, nem quem foram “eles” que poderiam ser escandalizados. O sentido de “escandalizar” aparece só na frase de Jesus, sem explicação.

O relato aparece só em Mateus, segundo Ellicott, e não há paralelo nos outros evangelhos. A Bíblia também não explica por que a moeda estaria na boca de um peixe, nem de onde ela veio.

Por que esse detalhe importa?

Porque a versão que circula, “Jesus tirou uma moeda da boca de um peixe para pagar o imposto”, diz mais do que o texto. Mateus registra o argumento, a ordem e a promessa. O peixe com a moeda aparece só na boca de Jesus.

Apaga também o argumento: Jesus diz que os filhos estão livres e manda pagar mesmo assim, para não escandalizar os outros.

Perguntas relacionadas

Jesus pagou imposto?

O texto registra que ele mandou pagar a taxa do templo, por ele e por Pedro (17:27). Não registra a entrega do dinheiro.

Que imposto era esse?

A taxa do templo, de duas dracmas por homem, ligada a Êxodo 30:13-16. Não era o tributo a César.

O que é um estáter?

Uma moeda grega de prata. Para Ellicott, valia quatro dracmas, o suficiente para pagar a taxa de Pedro e a de Jesus.

Pedro achou mesmo a moeda?

Mateus não diz. A ordem está em 17:27, e o texto não registra o resultado.

Leia também

Fontes e referências

Leia o capítulo 1 de graça

O livro já saiu. Deixe seu e-mail e receba agora o primeiro capítulo, “O ferro era emprestado”, em PDF, para ler antes de decidir.

Só mandamos e-mails sobre o livro. Para sair, clique em “Sair da lista” no fim de qualquer e-mail.