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Por que Jeremias foi jogado na cisterna? O que o texto registra

Jeremias foi descido numa cisterna sem água, só com lama. Veja o que os príncipes alegaram, quem o tirou de lá, a dúvida sobre o número de homens e o que o texto não…

8 min de leitura

Cisterna de pedra com lama no fundo, cordas e trapos na borda, no átrio da guarda em Jerusalém ao pôr do sol

Resposta curta

Porque alguns príncipes de Judá queriam a morte dele pelo que anunciava ao povo: quem ficasse em Jerusalém morreria, quem se entregasse aos caldeus viveria (Jeremias 38:2). Para eles, isso enfraquecia os soldados que restavam (38:4). O rei Zedequias não os impediu e disse que Jeremias estava “na vossa mão” (38:5). A cisterna não tinha água, só lama (38:6).

O que os príncipes ouviram

Quatro homens ouvem o que o profeta dizia a todo o povo: Sefatias, Gedalias, Jucal e Pasur (38:1). A mensagem é curta. Quem ficar na cidade morre de espada, de fome e de peste; quem sair aos caldeus vive, “porque a sua alma lhe será por despojo” (38:2). E a cidade “infalivelmente será entregue” ao rei da Babilônia (38:3).

O pedido ao rei é direto: “Morra este homem” (38:4). O motivo vem na mesma frase. Ele “enfraquece as mãos dos homens de guerra que restam nesta cidade” e “não busca a paz para este povo, porém o mal”. A acusação não é de falsa profecia nem de blasfêmia. É de desmoralizar a defesa.

Nada disso era novo. Em Jeremias 21:8-9, em palavras muito próximas, a mesma mensagem aparece como resposta a uma consulta do próprio rei, que tinha mandado a Jeremias, entre outros, um Pasur, filho de Malquias (21:1). É o mesmo nome e o mesmo pai de um dos quatro de 38:1, mas o texto não diz que seja a mesma pessoa. Também não diz o que fez os príncipes reagirem agora.

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A cisterna no átrio da guarda

Jeremias já estava preso no átrio da guarda, onde recebia um pão por dia da rua dos padeiros (37:21). A cisterna ficava nesse mesmo pátio (38:6). Ninguém o levou para longe: desceram-no com cordas num poço do lugar onde ele já estava.

Era a cisterna “de Malquias, filho do rei”. A expressão “filho do rei” pode ser um título da casa real e não um parentesco direto. O comentário de Ellicott, citado no BibleHub, lembra que a mesma construção aparece em 1 Reis 22:26 e 2 Crônicas 28:7. A ACF mostra a oscilação: em 36:26 traduz como nome próprio (“Jerameel, filho de Hamaleque”), e a King James faz o mesmo em 38:6 (“Hammelech”).

Sobre o lugar, o texto dá três informações. Não havia água, só lama, e ele “atolou-se” (38:6). Fica de fora a profundidade, o tempo que ele passou ali e se alguém lhe levou comida.

O etíope que falou com o rei

Quem age é Ebede-Meleque, “o etíope, um eunuco que então estava na casa do rei” (38:7). O léxico do BibleHub dá “cuxita” para a origem e registra o termo hebraico traduzido por eunuco como “eunuco, camareiro, ministro de estado”. Ellicott acha provável que “Ebede-Meleque”, que significa “servo do rei”, já funcionasse como nome próprio.

Ele sai do palácio e encontra o rei sentado à porta de Benjamim. Diz que os homens “agiram mal em tudo quanto fizeram” e que o profeta “decerto morrerá de fome no lugar onde se acha, pois não há mais pão na cidade” (38:9).

O rei manda: “Toma contigo daqui trinta homens, e tira a Jeremias, o profeta, da cisterna, antes que morra” (38:10). O número chama atenção. O hebraico traz “trinta”, mas a Good News Translation traz “três homens”, e Ellicott e o Pulpit Commentary citam a hipótese de que “três” seria a leitura original. É hipótese. O texto que temos diz trinta.

Ebede-Meleque pega trapos e roupas velhas na casa do rei e os desce por cordas. Manda o profeta pô-los “nas axilas, calçando as cordas” (38:11-12). O texto não diz para quê, mas o gesto sugere proteger o corpo do atrito. Puxam-no, e ele volta ao átrio da guarda (38:13).

Depois da cisterna

Zedequias chama o profeta em segredo, à “terceira entrada da casa do Senhor”, e pede que não esconda nada (38:14). Ele pergunta se o rei não o matará (38:15). O rei jura, também em segredo, que não o matará nem o entregará aos que procuram a sua morte (38:16).

O profeta repete o conselho: se o rei sair aos príncipes do rei da Babilônia, ele e a cidade vivem; se não, a cidade é queimada (38:17-18). O rei diz ter medo dos judeus que já passaram aos caldeus (38:19). O capítulo não registra decisão dele. O capítulo 39 mostra o rei fugindo de noite quando a cidade é invadida (39:4).

Antes de despedi-lo, Zedequias pede que ninguém saiba da conversa e diz o que ele deve responder aos príncipes (38:24-26). Eles vêm, ele responde o que o rei mandou, e “calados o deixaram, porque o assunto não foi revelado” (38:27). Ele fica no átrio da guarda até a queda de Jerusalém (38:28).

O detalhe que passa despercebido

O rei diz duas coisas opostas no mesmo capítulo, a cinco versículos de distância. Em 38:5, diante dos príncipes: “o rei nada pode fazer contra vós”. Em 38:10, diante de Ebede-Meleque: “tira a Jeremias, o profeta, da cisterna, antes que morra”.

Entre uma fala e outra o texto coloca só a intervenção do etíope (38:7-9). Não registra reação dos príncipes à ordem e não explica o que mudou.

O que o texto diz

Jeremias 38 permite afirmar que:

  • os príncipes pediram a morte de Jeremias porque a mensagem dele, de que quem saísse aos caldeus viveria, enfraquecia soldados e povo (38:2-4);
  • o rei Zedequias respondeu que Jeremias estava na mão deles (38:5);
  • Jeremias foi descido com cordas numa cisterna do átrio da guarda, sem água e com lama (38:6);
  • Ebede-Meleque, um etíope da casa do rei, falou com o rei e recebeu ordem de tirá-lo (38:7-10);
  • Jeremias foi puxado com cordas e voltou ao átrio da guarda, onde ficou até a queda de Jerusalém (38:13 e 38:28).

O que o texto não diz

O texto não diz quanto tempo ele passou na cisterna, qual era a profundidade, nem quem propôs aquele método. O pedido dos príncipes era “Morra este homem”, e o capítulo não explica por que o resultado foi uma descida com cordas. O sujeito de “tomaram a Jeremias” também fica subentendido: o contexto aponta para os príncipes, mas o versículo não os nomeia.

Também não situa a cena no cerco. O capítulo 39 dá as datas do cerco, do décimo mês do nono ano de Zedequias até o dia 9 do quarto mês do décimo primeiro (39:1-2), e a cisterna não aparece amarrada a nenhuma delas.

Por que esse detalhe importa?

Porque a versão resumida, “jogaram o profeta num poço por dar más notícias”, apaga a acusação específica do texto. Ele dizia que quem saísse da cidade viveria, e os príncipes entenderam isso como enfraquecer a defesa.

Apaga também o resgate, que depende de um oficial de origem estrangeira e de uma ordem do mesmo rei que acabara de dizer que não podia agir contra os príncipes.

Perguntas relacionadas

Jeremias morreu na cisterna?

Não. Foi puxado com cordas (38:13) e ficou no átrio da guarda até a queda de Jerusalém (38:28).

Havia água na cisterna?

Não. Só lama, e ele “atolou-se” (38:6).

Quem tirou o profeta da cisterna?

Ebede-Meleque, o etíope, com homens que o rei pôs à disposição (38:7-13).

Quantos homens o rei mandou com Ebede-Meleque?

O hebraico traz trinta (38:10). A Good News Translation traz três, e alguns comentaristas citam “três” como leitura original possível. É hipótese, não texto.

Leia também

Fontes e referências

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