Resposta curta
Mais de um ano: os quarenta dias que todo mundo lembra são só os da chuva (Gênesis 7:12). O texto também data o começo do dilúvio, no dia 17 do segundo mês do ano 600 da vida de Noé (7:11), e o dia em que a terra estava seca, o 27 do segundo mês do ano seguinte (8:14). Entre uma data e outra passam um ano e dez dias. A Bíblia não diz em que dia Noé saiu e não explica qual calendário essas datas seguem.
A cronologia, na ordem do texto
Gênesis conta o dilúvio com dia e mês. Na ACF, a sequência é esta:
- 7:11: no dia 17 do segundo mês do ano 600, rompem-se as fontes do grande abismo e abrem-se as janelas dos céus.
- 7:12: chove quarenta dias e quarenta noites.
- 7:24: as águas prevalecem por cento e cinquenta.
- 8:4: a arca repousa, no dia 17 do sétimo mês, “sobre os montes de Ararate”.
- 8:5: no primeiro dia do décimo mês, aparecem os cumes dos montes.
- 8:6: “ao cabo de quarenta”, Noé abre a janela da arca.
- 8:13: no primeiro dia do primeiro mês do ano 601, as águas se secaram, e Noé tira a cobertura da arca.
- 8:14: no dia 27 do segundo mês, a terra estava seca.
Do dia 17 do segundo mês ao dia 17 do sétimo são cinco meses. Se cada mês tiver trinta, a conta fecha nos cento e cinquenta de 7:24. Essa soma é de leitor: o texto não diz quantos dias tem cada mês.
O outro quarenta
Há um segundo “quarenta” no capítulo 8: “ao cabo de quarenta dias, abriu Noé a janela da arca que tinha feito” (8:6). O texto não diz a partir de que dia essa contagem começa. Uma leitura possível é contá-los desde 8:5, quando surgem os cumes dos montes. Fica como leitura. O que o texto permite afirmar é que esse quarenta é outro, separado dos da chuva.
O corvo que quase ninguém lembra
Antes da pomba, Noé solta um corvo (8:7). A ACF diz que ele saiu, “indo e voltando, até que as águas se secaram de sobre a terra”.
É aqui que as traduções discordam. O comentário de tradução das Sociedades Bíblicas Unidas, de Reyburn e Fry, diz que “indo e voltando” tanto pode significar que o corvo saiu e retornou várias vezes quanto que voou de um lado para o outro sem voltar à arca. A Good News Translation segue a segunda leitura, e o texto francês corrente (Bible en français courant) segue a primeira. A Septuaginta, a tradução grega antiga, na versão inglesa de Brenton, diz que ele saiu e não voltou até a água secar.
A pomba ficou com a fama, mas é o corvo que muda de sentido conforme a tradução.
A pomba e a folha
Em 8:8, Noé solta uma pomba “para ver se as águas tinham minguado”. Ela não acha onde pousar e volta; Noé estende a mão e a recolhe. Ele espera “ainda outros sete dias”, e a palavra “outros” sugere que a primeira espera também foi de sete, embora o texto não a registre.
Na segunda saída, a pomba volta à tarde com “uma folha de oliveira” arrancada no bico (8:11), e Noé conclui que as águas baixaram. Espera mais sete dias, solta a pomba de novo, e ela “não tornou mais a ele” (8:12).
O texto diz folha, não ramo. O ramo de oliveira é a imagem que ficou na memória popular; no versículo, o hebraico usa a palavra para folha (alêh) e outra que indica que estava recém-arrancada (tarap), segundo o léxico do BibleHub.
A janela e a cobertura
Noé abre “a janela da arca” em 8:6, mas só enxerga a terra seca em 8:13, quando “tirou a cobertura da arca, e olhou”. São duas aberturas diferentes, com dois momentos diferentes.
A palavra hebraica de 8:6 é challon (Strong 2474), “janela”. O comentário de Ellicott, citado no BibleHub, observa que não é o tsohar de Gênesis 6:16, e sim uma abertura. O texto não diz o tamanho nem a posição de nenhuma das duas.
O detalhe que passa despercebido
Os quarenta que ficaram na memória são os da chuva, não os da estadia. Quando alguém pergunta quanto tempo Noé ficou na arca e ouve “quarenta”, está recebendo o número do capítulo 7 como resposta a uma pergunta que as datas do capítulo 8 respondem de outro jeito.
Chuva: quarenta. Águas altas: cento e cinquenta. Terra seca: mais de um ano depois do começo.
O que o texto diz
Gênesis 7 e 8 permitem afirmar que:
- a chuva durou quarenta dias e quarenta noites (7:12), e as águas prevaleceram cento e cinquenta (7:24);
- o dilúvio começou no dia 17 do segundo mês do ano 600 de Noé (7:11), e a terra estava seca no dia 27 do segundo mês do ano seguinte (8:14);
- a arca repousou nos montes de Ararate no dia 17 do sétimo mês (8:4);
- Noé soltou um corvo e, depois, uma pomba por três vezes; na terceira, ela não voltou (8:7-12);
- na segunda vez, a pomba voltou com uma folha de oliveira (8:11).
O que o texto não diz
O texto não diz em que dia Noé saiu da arca. Dá a data em que a terra secou (8:14) e, logo depois, a ordem de Deus para sair (8:15-16). Também não diz qual calendário as datas seguem, então o “um ano e dez dias” vale pela contagem do próprio texto, não por um calendário medido.
A contagem tem ainda um ponto solto. Em 7:10, o dilúvio começa depois de sete dias de aviso, e 7:13 diz que Noé e a família entraram na arca “no mesmo dia” em que as fontes do abismo se romperam. O texto não explica como esses sete dias entram na conta.
Também não resolve o corvo, não informa de que dia contam os quarenta de 8:6 e não localiza a arca além de “montes de Ararate”, no plural. Nenhum pico específico aparece.
Por que esse detalhe importa?
Porque a resposta de memória, quarenta dias, vem de um número que o texto usa para a chuva. A cronologia do texto é bem mais longa e tem dia e mês marcados.
Quem lê só a cena do barco com a pomba perde isso. Quem lê o capítulo com as datas na mão vê um episódio de mais de um ano, com esperas de sete em sete dias.
Perguntas relacionadas
Noé ficou quarenta dias na arca?
Não. Quarenta dias foi a duração da chuva (7:12). Pelas datas do texto, o dilúvio durou pouco mais de um ano, do dia 17 do segundo mês do ano 600 ao dia 27 do segundo mês do ano seguinte.
O corvo voltou para a arca?
O texto não é claro. A ACF diz “indo e voltando”, mas as traduções divergem, e a Septuaginta diz que o corvo não voltou até a água secar.
Era um ramo de oliveira?
Não. O versículo diz “uma folha de oliveira”, arrancada (8:11). O ramo é a imagem popular.
Quantas vezes Noé soltou a pomba?
Três. O texto registra sete dias de espera antes da segunda e antes da terceira saída (8:10 e 8:12). Na terceira, ela não voltou.
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Fontes e referências
- Bíblia Online, ACF — Gênesis 7: https://www.bibliaonline.com.br/acf/gn/7
- Bíblia Online, ACF — Gênesis 8: https://www.bibliaonline.com.br/acf/gn/8
- BibleHub — Gênesis 8:6 (janela, challon, e comentário de Ellicott): https://biblehub.com/genesis/8-6.htm
- BibleHub — Gênesis 8:7 (corvo, Septuaginta de Brenton): https://biblehub.com/genesis/8-7.htm
- BibleHub — Gênesis 8:11 (folha e recém-arrancada): https://biblehub.com/genesis/8-11.htm
- Reyburn e Fry, A Handbook on Genesis (Sociedades Bíblicas Unidas), comentário de 8:7: https://tips.translation.bible/?p=23299



